Maria tinha olhos grandes, castanhos e dependendo da luz, meio mel. Eles gostavam de enxergar o amanhã, ou o simples dia-a-dia que revelava o futuro. Amavam as belas paisagens, mas muita luz do sol também fazia mal. Sabiam fechar-se, contra a vontade da menina, e encontravam proteção no escuro. Mas abriam de novo, era irresistível esse gostinho de ter sempre mais a aprender. Novas cores. Novos Tons. Novos sentimentos, detalhes, estampas. Olhavam as rugas de uma vida tão bem aproveitada, uma mão cansada de trabalhar mas cheia de história. Sabiam enxergar a beleza num novo florescer, no sorriso de bebês e entendiam os sentimentos humanos mais complexos apenas por olhar a outros olhos.
Os olhos viam beleza em tudo. Ao contrário de Maria. Maria nunca aprendeu a enxergar. Seus olhos eram afogados em lágrimas todas as noites. E, depois do último mergulho, não voltaram a luz. Estava tudo ali e ela não viu.
A última ponta de lápis caiu já faz mais de três meses. Parei de escrever. Por quê? Não sei dizer, a vida continua boa por aqui. Talvez eu tenha nascido para escrever só sobre mim, por efeitos de uma imaginação já nem tão fértil, e eu tenha cansado de mim também.
Perguntam sobre meus humores, minhas novidades e no fundo nem querem saber. Sou educada também, questiono: “e como anda a vida aí?” mas a verdade é que a vida lá está sempre igual. Naquele lugar, a um oceano de distância, tudo continua perfeitamente igual.
E o quão igual nós precisamos ser? Finalmente entendi a maior tolice humana, e também seu maior triunfo: nunca estamos satisfeitos. Queremos mais, normalmente o que não temos. O gosto do impossível. O prazer no “ter”. Essa busca faz parte de mim agora. Faltará sempre um pouco. Daqui ou de lá. Não viverei partida, cada um sabe ao menos onde a maior parte do coração está. Eu sei, e é logo ali, nas terras verdes onde o sol realmente existe.
Falta tão pouco agora, mas é logo na melhor parte! Pensar em deixar tudo isso pra trás finalmente começou a entristecer um pouco. Colocarei meus novos amigos na minha mala, junto com um pouquinho de frio e minha última família. Trarei comigo mais lembranças que um scrapbook lotado, de um tempo bom e ruim, um tempo de crescimento.
Deixe-me ir, e voltar, para onde quer que seja.
Maria gostava de flores a tal modo que decidiu guardar todas que encontrasse em seu guarda roupa. Das amareladas até as pintadas com várias cores. Saiu pelo jardim recolhendo flores. Girassóis lembravam sua avó, pelo jardim mais belo que já tinha visto ao logo de seus 7 anos. Rosas tinham o nome de sua mãe. Recolheu violetas também, elas tinham algo que ela ela gostava mas não saberia explicar o quê. Mais tarde, pela sua rua. Nos dias seguintes, pela cidade. A menina sentia uma felicidade enorme em montar sua coleção. Acabou arrancando todas as flores da pequena cidade em 2 dias. No quarto dia, seu guarda roupa virou pó. Não havia vida. Nem ali, nem pela cidade. Maria chorou por outros 4 dias e aprendeu. Maria gostava tanto de flores, que nunca mais teve nenhuma.
E o que dizer sobre o Brasil? Sobre a saudade? Sobre esses últimos meses vividos tão longe? O que dizer sobre cada um tocando suas vidas? Sobre as novas caras em meio aos meus antigos amigos? O que dizer sobre tudo que mudou e tudo que faz questão de continuar o mesmo?
Tempo de mudanças estão por vir, afinal, chegou a hora de crescer. Vim pra cá viajar, conhecer novas culturas e perder o medo. Deixar pra trás inseguranças, vergonhas e dúvidas bobas. E deixei. Já foram 6 meses e talvez essa seja a fase mais difícil.
Vi muitas coisas perderem o encanto, vi a neve começar a irritar e vi gente desistir, mas antes de tudo, vivi. Continuei. Soube encontrar felicidade nas pequenas coisas, ainda que quase imperceptíveis, e achei forças.
Hoje assisto o tempo passar enquanto espero o próximo encontro, viagem ou qualquer acontecimento. E dessa forma os meus últimos 6 meses, que já são quase 5, e se contar que volto na metade de Julho, já são quase 4… estão indo embora. E meu Brasil continuará ali, de braços abertos, com todos os laços que fiz pela minha vida.
Optei por não dizer e deixo o silêncio me guiar. É tempo de fechar os olhos e sentir porque eu escolhi viver ainda mais.
A noite e uma boa música. 22 horas com cara de madrugada, pela inspiração, sono e rastros de dor. Paramos nos últimos dias para olhar o próximo. De repente essa corrida atrás dos 18 anos que tanto almeja chegar no “futuro inteiro pela frente”, não saiu do lugar. O futuro não existe, o amanhã talvez seja a maior ilusão que já tenham inventado. Acordamos um dia esperando pela rotina e nos levaram para longe. Gente de todo o mundo chorou junto, e eu queria acreditar, que também superarão juntos. Mas não é assim… a vida dá a cada um seu tempo. E como curar algo que não volta? O que fazer com essa sensação de insegurança, mas que ao mesmo tempo dói tão fundo, e não te faz querer protestar por nada? No meio da dor não existem culpados, a raiva intercala com toda a tristeza e frustração de não poder alterar nada. 231 almas estão evoluindo agora, se descobrindo de novo, num plano que nem ao menos temos capacidade de entender. Agora é pensar que só acabou aqui. E cabe a nós festejar cada dia. Afinal, ouvi por aí que a vida é só um sopro.
Hoje, no ônibus voltando da escola, pensei muito sobre amizades. Desde aquela pessoa que você encontra por acaso no trem, metro, fila de banco, até aquela amizade que já dura 13 anos. Talvez por causa desses pensamentos que o blog chame “Livre Fim” e “Livre Início”. Gosto de saber que sempre serei livre para começar uma amizade. E livre também para deixá-las se perderem no espaço entre memórias e futuro. Não tem como simplesmente dizer que uma relação acabou, ainda não inventaram um jeito de apagar o passado… e não quero isso. A inevitável mudança te aguarda e não será a únicoa. Alguns vão te acompanhar, outros encontrarão outro caminho.
Vi muitos ex intercambistas perderem amigos um a um. Vi outros fazerem laços extremamente fortes em apenas um ano. Vi irmãos se encontrarem vencendo distâncias que anos atrás seriam impossível de superar. Vi idas e vindas. E ás vezes mais vindas… dizem que tudo acaba, mas nunca acreditei nisso.
Vendo os outros, e pensando em mim, percebi o quão sortuda eu sou. Fiz amizades fortes aqui e tem tanta gente me esperando. Sabe aqueles amigos verdadeiros que se contam em uma mão? Eu tenho duas mãos. Duas de pessoas confiáveis, e uma família linda e imensa. O segredo é não desejar mal, ser sincera independente do que acontecer e não ter medo de se abrir. E, meu Deus, como é importante ter alguém contigo.
Conheço angústias que só vão embora depois de uma boa conversa. Um desabafo, um choro. Tristezas que insistem em ficar em ti até alguém vir tirar ela do teu peito. Alguém que te abrace, te dê a mão, o ombro, dinheiro emprestado e seja um ótima companhia parar finais de semana. Bom que tenha dois ouvidos também e um coração que saiba aceitar nossos defeitos.
Acordei hoje as duas horas da tarde, super preocupada, porque dinamarqueses acham 10 horas da manhã tarde para levantar. Limpei meus olhos, olhei meu quarto, e fui me arrumando. Tentei ouvir algum som mas não tinha nenhum. Terminei de me arrumar o mais rápido que pude, e saí do quarto. Desci, disse “Hej” alto e não obtive resposta. Engano meu achar que teria alguém, não? Todos saíram. Trabalho, escola, fazeres do dia a dia. E eu preocupada em levantar as duas. Sabe de uma? Que bom que acordei as duas. Que bom que aproveitei minha cama o máximo que pude e a noite anterior também. Que bom que abusei da madrugada com skype, facebook, textos, música, amigos. Que bom que não tinha ninguém me esperando acordar, não queria mesmo.
Passei o dia bem, peguei ônibus para ir ao mercado comprar os ingredientes do meu bolo de cenoura e na volta peguei um ônibus de graça, o escolar. Pensei em não pegar, juro. Pensei ser errado pegar o ônibus de graça sendo que eu não estava na aula. Meus medos chegam a ser ingênuos. Disse pra mim mesma “Pego o ônibus que chegar primeiro” e foi o de graça. Até o destino quer que eu abuse dessas pequenas coisas. Mas, quer saber? Que bom que não tive que pagar, até porque já tinha gastado minhas preciosas coroas comprando comida porque ninguém foi comigo pro mercado. Amanhã vou levantar cedo, tenho encontro com as minhas amigas dinamarquesas e criaram um código de roupas. Preciso vestir algo preto, de preferência vestido. Tenho um aqui e tive que vestir antes para saber se eu conseguiria fechá-lo sozinha. Porque amanhã não terá ninguém aqui para fechar meu vestido. E esse, no momento, é meu maior problema. Eu só queria alguém para fechar meu vestido. Mas tudo bem, consegui fechar. E a vida é assim, não? A gente pensa que não dá, e no final você percebe que já lidou com tantas outras coisas piores.
Nunca pensei no intercâmbio dessa forma, mas agora está bem claro. Esse ano pode ser também uma das experiências mais solitárias que já tive. Ainda assim, não posso reclamar, não é? “Está na Europa, Gabi, realizando teu sonho”. Prometo tomar cuidado com meus próximos pedidos. Não gosto de reclamar, até porque, acabei de chegar de duas viagens maravilhosas e terei um dia lindo amanhã… só me responde, quem é mesmo feliz o tempo todo?
Pensei sem querer nos sonhos que eu já tive. Sempre quis viajar, conhecer o mundo, ouvir o som de outras línguas. Mas não é desses sonhos que quero falar. Penso agora nos pequenos “quereres” que já desejei antes. Sempre quis ter um caderno cheio de palavras. De ponto a ponto, com uma caligrafia perfeita. Queria uma capa bonita, com desenhos de flores pelas bordas. Azuis, pois transmitem calma. Queria escrever uma história que fosse realmente boa e fizesse alguém chorar. Mas o que eu mais queria era o tal caderno singelo, bem bonito, com meus textos. Já quis outras coisas também… aquela roupa certa, um quarto só pra mim, uma irmã mais nova. Quis fazer amigas na nova escola, conseguir a nota suficiente para passar na matéria. Já pedi tanto, o tempo todo. Já sonhei grande também, quem nunca assoprou as velhinhas pedindo para ser rica? Já quis ser princesa, e já quis sair de casa para morar com amigas só para poder deixar meu quarto bagunçado todos os dias. E sabe a melhor parte disso? Uma boa parte dos meus quereres já são memórias lindas da sensação que é conseguir o que deseja. Mas, amigo, a vida é doce e nos dá tempo para tudo. Por alguma razão realizei meu sonhos de viajar antes de conseguir comprar um caderno bonito e preenchê-lo com minhas palavras. Que eu nunca esqueça dos pequenos prazeres da vida e menospreze o que realmente me faz feliz. E que, enfim, o ano que vem me traga outros tantos sonhos, porque não nasci para viver sem querer.